Elementos sutis - post no blog da Lúcida Letra

Elementos sutis

Trecho do livro "Coração aberto, mente aberta", de Tsoknyi Rinpoche.

De acordo com a tradição budista, os padrões emocionais que ditam nosso senso interno de equilíbrio ou desequilíbrio, bem como as manifestações físicas e emocionais de desequilíbrio persistente, são funções do corpo sutil.

O corpo sutil muito raramente é discutido nos ensinamentos públicos. Entende-se que seja um dos ensinamentos mais elevados ou superiores do budismo tibetano. Entretanto, acredito que o entendimento do corpo sutil e sua influência em nossos pensamentos, ações e, em particular, nossas emoções seja essencial para o entendimento das camadas que obscurecem nossa capacidade de nos relacionarmos cordial e abertamente conosco mesmos, com os outros e com as condições que cercam nossa vida. Além do mais, sem entendimento do corpo sutil, a maioria das práticas de meditação se torna um simples exercício de extensão da nossa zona de conforto, uma série de técnicas que resultam na preservação do senso sólido de “eu”.

O corpo sutil é essencialmente uma espécie de interface entre a mente e o corpo físico, um meio pelo qual esses dois aspectos do ser interagem. Uma imagem tradicional simples envolve a relação entre o sino e o badalo, a bolinha de metal que bate nas paredes do sino. O badalo representa o corpo sutil, o nexo dos sentimentos, enquanto o sino representa o corpo físico. Quando o badalo bate no sino, o corpo físico – nervos, músculos e órgãos – é afetado e ocorre o som.

O corpo sutil, porém, é um pouco mais complexo do que um sino. É constituído de três características relacionadas. A primeira é composta por um conjunto daquilo que em tibetano é chamado de tsa, geralmente traduzido como “canais” ou “caminhos”. Pessoas familiarizadas com a acupuntura podem verificar uma semelhança entre esses canais e os meridianos frequentemente descritos em textos de acupuntura. Outras podem achar que é mais fácil reconhecer uma semelhança entre os tsa e a rede de nervos que se estende por todo o corpo, com o que eles de fato estão intimamente correlacionados.

Os canais são as vias pelas quais se deslocam o que poderíamos chamar de “centelhas de vida”. Em tibetano, essas centelhas são chamadas de tigle, “gotas” ou “gotículas” – interpretação que recebemos para poder formar algum tipo de imagem mental daquilo que passa através dos canais.

Hoje em dia, claro, podemos começar a pensar nessas “gotas” como neurotransmissores, os “mensageiros químicos” do corpo que afetam nossos estados físico, mental e emocional. Alguns desses neurotransmissores são bastante famosos: por exemplo, a serotonina, que influencia na depressão; a dopamina, substância associada com a antecipação do prazer; e a epinefrina (mais comumente conhecida como adrenalina), substância geralmente produzida em resposta ao estresse, à ansiedade e ao medo. Os neurotransmissores são moléculas minúsculas, e, embora seus efeitos em nossos estados mentais e físicos possam ser bastante perceptíveis, sua passagem entre vários órgãos do corpo ainda pode ser chamada de sutil.

Os tigle são transportados pelos canais por uma força energética conhecida em tibetano como lung (pronunciada “loong”), cujo significado básico é “vento”, a força que nos sopra para um lado ou outro, física, mental e emocionalmente. Na tradição budista, todo movimento, todo sentimento, todo pensamento é possível por causa do lung – não existe movimento sem lung. O lung está enraizado em uma região cerca de quatro dedos abaixo do umbigo (meio parecido com energia tan-tein na prática de Qigong). Esse é o lar, por assim dizer, de onde ele flui através dos canais carregando as centelhas de vida que transmitem a vitalidade que sustenta nossa condição física, mental e emocional.

Mas, tendo em conta que não podemos ver o corpo sutil, como sabemos que ele está lá?