A negação na meditação

Por Vítor Barreto
em 04 Julho, 2018
A negação na meditação

Trecho do capítulo 5 (Dois modos de escapar) do livro "O poder de uma pergunta aberta".

[...]

Pensamentos surgem junto com energia, sensação e emoção, e não há problema nisso. Mas o que fazemos quando energia, sensações, pensamentos e emoções se tornam desconfortáveis? O que fazemos com todas as experiências indesejáveis que temos durante a meditação? A tensão em nosso pescoço: o que fazemos com ela? O que fazemos com todos aqueles pensamentos incontroláveis? O que fazemos com o embotamento, as emoções negativas, a fadiga, a excitação, a loucura, o tédio? Em suma, o que fazemos com as experiências desagradáveis?

“Indesejáveis” refere-se às frustrações que experienciamos quando nossas esperanças e expectativas sobre como queremos que as coisas sejam não são atendidas. Temos preferências em relação a como gostaríamos que nossa experiência fosse: um descanso da vida comum; algum tempo livre para ser “espiritual”; um estado de mente prazeroso. Mas, quando sentamos para meditar, parece que estamos apanhando da nossa mente. Não sabemos como nos relacionar com a energia dinâmica da mente, porque ela parece vir em nossa direção como um inimigo. Mas o fato de rejeitarmos grande parte da nossa experiência deveria nos servir de indicação de que estamos no caminho errado.

A negação retira a consciência do nosso desconforto, buscando a liberação sem levar em conta nossa experiência. Isso soa familiar? O Buda abandonou seu retiro na floresta por ter compreendido que o desenvolvimento espiritual não seria possível por meio da negação do mundo físico, dos pensamentos, das emoções e percepções. Em outras palavras, ele entendeu que atingir a iluminação não será possível se rejeitarmos e negarmos os acontecimentos que são a nossa vida em si.

A beleza e a bondade únicas da abordagem do Buda é que ele nunca sugere que precisamos experienciar nada além do que já experienciamos. O Buda nunca disse que alguns pensamentos são maus e errados e que deveríamos rejeitá-los. Pensamentos e emoções – todos os tipos de eventos – surgem em nossas vidas e nós não podemos controlá-los. O primeiro ensinamento do Buda começa com profunda investigação do sofrimento e suas causas. A contemplação budista oferece-nos a oportunidade de desenvolver uma nova relação com o sofrimento que é o oposto da nossa postura usual de negação das experiências indesejáveis. A partir dessa visão, circunstâncias desafiadoras tornam-se portões de entrada para a liberação. Seguindo esse espírito, os ensinamentos budistas enfatizam a prática de incluir e penetrar profundamente na natureza de todas as coisas, em vez de rejeitar as experiências.

Uma vez, durante um retiro difícil no qual muitos pensamentos e emoções turbulentas seguiam surgindo em minha prática, meu professor, Dzigar Kongtrül Rinpoche, me explicou que as perturbações que encontrei vinham de uma resistência sutil que eu tinha em relação à minha experiência. Rinpoche me fez recordar que a atitude a ser adotada na prática é a de oferecer respeito e gratidão à mente e à experiência. Quando respondemos a qualquer coisa que surge com julgamento ou agressão, experimentamos a dor disso. Na vez seguinte em que eu sentei para praticar, parei de rejeitar minha experiência, de evitá-la. Surpreendi-me ao ver quanta diferença fazia. Era apenas um pequeno ajuste, mas ainda assim senti como se uma carga enorme houvesse sido liberada. E, mais importante, essas instruções me ensinaram a apreciar minha mente durante a prática.

 

Para comprar o livro:

 

Desenvolvendo uma nova relação com a beleza (trecho do livro "O poder de uma pergunta aberta")

Por Vítor Barreto
em 06 Junho, 2018
1 comentário
Cerejeiras em flor - O poder de uma pergunta aberta

Trecho do capítulo 10 (Consertando e curando), do livro "O poder de uma pergunta aberta", lançamento da Lúcida Letra:

Desenvolvendo uma nova relação com a beleza

Tenho mais uma história sobre árvores. Em uma primavera, anos depois de ter dirigido por aquela estrada sinuosa com árvores que se coloriam no outono, Rinpoche me levou a Kyoto, no Japão, para ver as cerejeiras em flor. As flores pareciam ser o reflexo de um pôr do sol cor-de-rosa batendo na neve. Eu poderia seguir falando de sua beleza... mas algo me interessou ainda mais do que as flores: observar o povo japonês apreciando-as.

Quando os japoneses olham para uma flor de cerejeira, se em algum momento chegam a dizer alguma coisa, eles dizem algo como: “Sakura [que significa “cerejeira em flor”]... ahhh...”. “Ahhh...” pode não ser a melhor interpretação fonética do som que eles fazem, mas soa semelhante e tem sentido equivalente a “ahhh”, o som do deslumbramento em inglês. “Ahhh...” não é um som de objetificação. Isto seria mais como “hummm” (um sinal de dúvida) ou “é” (eu já sei) ou “meu deus!” (acho que entendi). O som do deslumbramento não é cerebral. Particularmente quando os japoneses o emitem, ele soa mais como um suspiro – carrega um pouco de tristeza. É o reconhecimento da beleza efêmera: beleza e decadência andam juntas, e os japoneses parecem entender isso. A vida é agridoce. Mas cá estou eu começando a tirar conclusões sobre pessoas e árvores de novo. Poderia o “ahhh” ser apenas uma expressão de absoluta abertura? – eu me pergunto.

“Ahhh” surge quando relaxamos os músculos em nossa boca suavemente aberta e deixamos o ar sair de maneira natural. Sem esforço. Por que você não tenta? Pode evocar uma sensação de profundo relaxamento. Não sou a primeira a notar – trata- se de conhecimento antigo. O som ah é a sílaba semente em sânscrito para espaço ou ausência de fronteira. Eles dizem em sânscrito que ah é inerente a todas as consoantes do alfabeto sânscrito, como as letras ra, sa ou ka. Em outras palavras, as consoantes podem apenas surgir e se mover no espaço de ah.

O que os apreciadores de cerejeiras em flor japoneses experimentam quando dizem: “Sakura, ahhh...”? Eu não sei. Mas desconfio que tem algo a ver com apreciar a beleza sem objetificá-la – criando espaço na mente para uma experiência plena das coisas.

 

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Por que o livro "Transformando confusão em clareza" é tão importante?

Por Vítor Barreto
em 11 Maio, 2018
Por que o livro "Transformando confusão em clareza" é tão importante?

Abaixo, um trecho do prefácio de Matthieu Ricard, em que ele explica a importância das práticas preliminares e as qualidades desse livro de Mingyur Rinpoche:

A combinação de testemunhos pessoais, com insights sobre a mente das pessoas e a entusiástica abertura para com o entendimento contemporâneo são algumas das características marcantes da inigualável facilidade com que Mingyur Rinpoche apresenta os ensinamentos mais profundos do Budismo, juntamente com questões relevantes para nosso mundo moderno. Em Transformando Confusão em Clareza, Rinpoche aplica essas maravilhosas habilidades. Ele nos oferece ensinamentos abrangentes sobre as práticas fundamentais, contendo instruções indispensáveis para realizar essas práticas de forma tradicional e autêntica. O que é muito especial, no entanto, é que essas instruções tradicionais são intercaladas com memórias inspiradoras, histórias de grandes mestres e insights íntimos do próprio caminho espiritual do Rinpoche, tornando, assim, os ensinamentos plenamente vivos.

É também significativo que, neste livro, Rinpoche tenha escolhido dar instruções extensivas sobre as práticas fundamentais, quando tantos praticantes hoje estão sedentos pelos chamados ensinamentos avançados. Porém, como Kyabje Dudjom Rinpoche (1904-87) escreveu: “O nascimento do significado da Grande Perfeição em seu fluxo mental depende dessas práticas fundamentais.”

Essa visão é consonante com a de todos os grandes mestres do passado. Drigung Jigten Gonpo (1143-1217), por exemplo, disse: “Outros ensinamentos consideram a prática principal mais profunda, mas aqui são as práticas preliminares que consideramos profundas.”

Para os leitores deste livro, esse fundamento sólido fará com que as práticas subsequentes fluam naturalmente. Sem as práticas fundamentais, por mais magníficas que as práticas subsequentes possam parecer, seu destino não é diferente de um castelo construído na superfície de um lago congelado. Assim como certamente o castelo afundará quando o calor da primavera chegar, as visões elevadas daqueles que julgam poder dispensar as práticas fundamentais entrarão em colapso assim que as circunstâncias externas se tornarem desafiadoras. Dilgo Khyentse Rinpoche (1910-91) disse muitas vezes: “É fácil ser um bom meditador quando estamos sentados ao sol com a barriga cheia. Quando confrontado com condições adversas o meditador é posto à prova.”

Mingyur Rinpoche e Matthieu Ricard
Mais informações sobre o livro:

O budismo é teísta? O que é o carma?

Por Vítor Barreto
em 29 Março, 2018
Jetsunma Tenzin Palmo, autora da Lúcida Letra

Trecho do lançamento da Lúcida Letra, Reflexos em um lago na montanha. Ao final de cada capítulo, há perguntas e respostas.

 

P: A senhora disse que o budismo é não teísta. Como conciliar isso com a atitude em relação ao Buda?

TP: O Buda não era um deus. Era um príncipe indiano que atingiu a iluminação perfeita por meio de seu esforço. Rompeu todas as fronteiras da ignorância e desconhecimento; a mente dele expandiu-se em todas as direções, e ele enxergou com clareza. Ele despertou. A realidade é que estamos todos dormindo em um mar de ignorância e também precisamos despertar. Quando reverenciamos o Buda, é pela enorme gratidão por seu exemplo e pelo fato de ter passado 45 anos vagando pelo norte da Índia e ensinando muitos diferentes tipos de pessoas e mostrando muitos diferentes caminhos de chegar à descoberta que ele fez. Ele não é um deus. Ele nunca criou nada. Ele não está manipulando nossas vidas. Não está nos julgando. Ele é um exemplo de nosso potencial humano.

P: Se todas as religiões possuem códigos de ética semelhantes, por que o budismo é tão especial?

TP: Todas as religiões dizem para não fazermos mal aos outros e sermos bons. Dizem para amarmos os outros. Todas dizem para tratarmos os outros como gostaríamos que eles nos tratassem. Uma das coisas muito especiais do budismo é que não nos diz apenas para amarmos nosso próximo como a nós mesmos, diz como fazer isso. Ele nos oferece técnicas para desenvolver a bondade amorosa e a compaixão.

P: O budismo também não ensina sobre o carma?

TP: Sim. Vejam, a base da ética budista é que tudo o que fazemos com nosso corpo, fala e mente tem resultados. Mente não significa apenas o intelecto, também inclui o coração, porque o alicerce da mente vem do chakra do coração, não do intelecto. O intelecto é o cérebro do computador, não a energia que o dirige. Estamos plantando sementes constantemente. Quaisquer ações motivadas pela ignorância (no sentido de confusão e delusão), pela ganância ou fixação, raiva ou aversão terão resultados negativos. Não importa quantas justificativas nos demos. Nossas justificativas não são a questão. A questão é a motivação subjacente. Ações motivadas por entendimento claro, amor ou generosidade terão resultados positivos.

Estamos escrevendo nosso próprio roteiro o tempo todo. Os resultados de todas as nossas ações virão a ocorrer, seja imediatamente ou mais adiante, nesta vida ou em vidas futuras. Portanto, o que está acontecendo conosco agora é na maior parte resultado de coisas que fizemos no passado, seja nesta vida ou em vidas passadas. É como reagimos ao que está acontecendo agora que cria o futuro. Temos total responsabilidade por tudo em nossa vida. Não podemos culpar mais ninguém. Somos responsáveis pelo que está acontecendo neste momento e pelo modo como lidamos com isso. As coisas acontecem e reagimos. Se reagimos de maneira hábil e aprendemos com elas ou não, depende de nós. A ética budista consiste em se assumir a responsabilidade. Precisamos perceber que estamos moldando nosso futuro a cada momento. Não existe alguém do lado de fora puxando as cordinhas. Não existe ninguém para nos julgar. Em um certo nível, julgamos a nós mesmos a cada momento, no sentido de que o que quer que façamos produz resultados. Se plantarmos boas sementes, teremos uma boa colheita. Se plantarmos sementes venenosas, nossa colheita também será venenosa.

 

As 4 nobres verdades em uma abordagem para crianças

Por Vítor Barreto
em 21 Março, 2018
Gangorra, altos e baixos, primeira nobre verdade

No livro Meditação em ação para crianças, Susan Kaiser Greenland apresenta diversos métodos e práticas para introduzir o mundo interno, a serenidade e a compreensão do nosso mundo para as crianças.

Um dos conteúdos que me chamou a atenção aparece logo no primeiro capítulo, quando a autora apresenta as 4 Nobres Verdades do Buda de um modo bem acessível, sobretudo porque o livro não é propriamente budista.

Não conseguirei colar todo o conteúdo aqui, mas reproduzo alguns trechos:

Quatro descobertas da atenção plena

A atenção plena foi desenvolvida há mais de 2.500 anos como resultado de uma descoberta sobre a natureza da experiência cotidiana baseada no senso comum: a de que cada aspecto da vida se encaixa de alguma forma no âmbito de quatro verdades básicas. No livro Breath by breath, o professor de meditação Larry Rosenberg descreve as quatro verdades como: o sofrimento existe; há uma causa para o sofrimento; há um fim para ele; há uma maneira de chegar a esse fim. Essas quatro descobertas fornecem um roteiro para o ensino da atenção plena para crianças e suas famílias.

A primeira descoberta: a vida tem seus altos e baixos

É fácil subestimar o quanto a infância moderna pode ser estressante. Muitas crianças precisam descobrir por elas mesmas as regras para serem aceitas dentro de suas turmas. Isso não é fácil, já que o preço do fracasso pode ser alto: ostracismo, bullying, falta de amigos. 

[...]

A maioria dos problemas se enquadra na categoria geral estresse, que engloba desde situações de risco de morte até pressões e preocupações crônicas persistentes.

A segunda descoberta: a delusão faz a vida mais difícil do que ela precisaria ser

[...]

Conheci pessoas que falam sobre a prática da atenção plena como se ela fosse uma poção mágica que propiciará a seus filhos acesso a todos os tipos de ganhos materiais: ascensão social, realização acadêmica, riqueza e até mesmo fama. Quero deixar claro que a atenção plena não é mágica. No entanto, há algo mágico em uma criança que vê pela primeira vez o que está acontecendo dentro, para e em torno de si mesma de forma clara, sem uma carga emocional. E isso é verdadeiro mesmo quando o que ela vê é desagradável.

[...]

Enxergar nitidamente pode ser o maior presente que a atenção plena tem a oferecer. Há muitos fatos acontecendo o tempo inteiro – a atenção plena ajuda a colocar as experiências em seu devido lugar e ajuda a medir a resposta, para que esta se dê na proporção correta. [...] Enxergar visivelmente o que está havendo dentro, para e em torno de você, exatamente como é, sem preconceitos ou reatividade, é um processo que leva a um estado mental pacífico, uma das experiências mais extraordinárias da prática da atenção plena. Ajudar crianças irritadas a encontrar um estado mental pacífico é algo com que realmente me importo e um dos objetivos do treinamento da consciência plena.

A terceira descoberta: a felicidade está ao nosso alcance

Que o sofrimento existe e termina são fatos óbvios, mas a ideia de que podemos escolher ser felizes em meio ao sofrimento é bem menos evidente. Possivelmente, a parte mais dolorosa de educar é ver seu filho ser machucado de forma totalmente injusta e não poder fazer nada a respeito. [...] Às vezes, uma mudança de perspectiva é suficiente para aliviar um sofrimento. Já houve momentos em sua vida que pareceram ridículos a ponto de você começar a rir? Naquele momento, seu sofrimento cessou. Nada mudou no mundo exterior, mas com uma mudança de perspectiva você pôde rir sobre o que aconteceu e experimentar um oásis de felicidade, mesmo que apenas por um momento.

[...]

É uma verdade básica e profunda que o sofrimento pode ser causado pela maneira como nós vemos uma situação e agravado pelo modo como reagimos a ela. A terceira descoberta da atenção plena nos diz que a felicidade está ao nosso alcance, por vezes através de algo como uma simples mudança de perspectiva. A quarta descoberta nos mostra como fazer essa mudança.

A quarta descoberta: a chave para a felicidade

Quando algo prazeroso acontece, nossa tendência é querer mais. Rapidamente, começamos a concentrar nossa energia em repetir o episódio (desejo). Quando algo ruim ocorre, ficamos propensos a fazer tudo que está ao nosso alcance para escapar (aversão) e podemos perder aspectos de uma experiência que, ainda que negativa, poderia nos trazer lições de vida úteis. Também tendemos a ignorar experiências sobre as quais somos neutros (indiferença) e nos preocupamos com outras questões. Desejo, aversão e indiferença são reações automáticas e comuns à experiência da vida, mas podem nos causar problemas quando não os reconhecemos.

[...]

Com alguma perspectiva, podemos ver melhor o cenário geral e responder de forma hábil, gentil e compassiva. Essa perspectiva lúcida é o alicerce para uma vida mais consciente. Há um jeito de viver a vida que minimiza a frustração, o descontentamento e, especificamente, reconhece:

  • que crescimento pessoal é tanto uma meta quanto um processo que evolui ao longo do tempo e com a prática;
  • a importância da motivação e do esforço;
  • a natureza mutável de todas as coisas;
  • que tudo o que dizemos e fazemos tem consequências;
  • que estamos conectados a outras pessoas e ao meio ambiente de tantas maneiras diferentes, que possivelmente não sabemos ou imaginamos.

A quarta descoberta nos mostra como viver dessa forma. Viver conscientemente é um processo, não uma característica fixa ou traço de personalidade. Nenhum de nós é perfeito, mas, se conectarmos esse processo ao nosso coração, poderemos levar vidas mais equilibradas.

Um dos grandes privilégios de trabalhar com a edição de livros como os que a Lúcida Letra publica é entrar em contato com os inúmeros modos como diferentes mestres, professores e especialistas encontram para apresentar ensinamentos milenares.

Me sinto muito inspirado por isso e espero que este post tenha sido igualmente inspirador pra você. :-)

Caso queira saber mais, o livro Meditação em ação para crianças está à venda em nosso site, já na segunda tiragem.

 

Uma viagem para a totalidade (um trecho do livro Autocompaixão com um exercício)

Por Vítor Barreto
em 05 Março, 2018
Bolo de chocolate - Autocompaixão (http://heatherhomemade.com/)

O trecho a seguir é parte do livro "Autocompaixão" e inclui um exercício. Para saber mais, você pode comprar o livro nas melhores livrarias e também aqui na Lúcida Letra

 

Percorrer o caminho para tornar-se um todo leva algum tempo e não acontece do dia para a noite. Rachel é minha amiga espirituosa e inteligente da época da pós-graduação. Apesar de suas qualidades, ela também conseguia ser um pouco vazia. A camiseta que estava usando quando a conheci praticamente a resume: “a vida é traiçoeira, porque se fosse apenas injusta, seria fácil”. Rachel era uma clássica pessimista, sempre via o copo meio vazio. Mesmo quando tudo estava relativamente bem, com apenas poucos desafios a enfrentar, Rachel se concentrava quase exclusivamente no que estava errado. Ela não dava valor às coisas boas da vida dela, pois não representavam um problema que precisasse ser resolvido. Sua postura resultava muitas vezes em ansiedade, frustração e depressão.

Lembro-me de quando Rachel fez um bolo de chocolate caseiro para o meu aniversário. O bolo estava delicioso, apesar do supermercado não ter sua marca favorita de chocolate e ela ter sido forçada a usar uma marca alternativa, não tão boa. Não importava o quanto eu lhe dissesse que tinha amado o bolo, ela só falava da qualidade inferior do chocolate (acho que seu comentário foi “parece uma imitação da Ding Dong (bolo de chocolate com baunilha”.) Ela se deixou levar por esse mau humor obsessivo com o bolo e acabou indo embora mais cedo da minha festa de aniversário.

A negatividade da Rachel não me incomodava tanto e muitas vezes me fazia rir. Certa vez lhe perguntei como tinha sido um encontro às escuras. “Uma chatice. Perguntei se estava tudo bem e ele realmente me respondeu”. Na pós-graduação, Rachel namorou um rapaz que não a achava tão engraçada e terminou com ela por ser tão negativa o tempo todo. Desde então ela se fechou ainda mais, o que, claro, só piorou as coisas.

Após terminar os estudos, Rachel jurou que mudaria seu jeito de ser. Leu livros sobre pensamento positivo e começou a enunciar diariamente afirmações otimistas, como “sou uma pessoa radiante de energia positiva” e “estou me tornando cada vez melhor todos os dias, em todos os sentidos”. Esforçou-se para pensar positivamente em qualquer circunstância, mesmo quando se sentia infeliz por dentro, e se manteve assim durante alguns meses – mas não durou mais que isso. Seu comportamento parecia falso e demandava muito esforço.

Rachel e eu mantivemos contato ao longo dos anos. Quando ela me perguntou sobre a minha vida, falei da minha pesquisa sobre a autocompaixão. No início, ela não ficou muito impressionada. “Não é apenas um conto da carochinha para disfarçar o fato de que a vida é uma merda?”. Como éramos velhas amigas e ela valorizava a minha opinião, sua resistência inicial cedeu com o tempo, e Rachel foi capaz de me ouvir quando lhe expliquei o conceito. Ela não disse nada por um tempo e eu imaginei que ela fosse revirar os olhos e ignorar tudo o que eu tinha dito. Em vez disso, ela me disse que queria experimentar ser mais compassiva consigo mesma e pediu minha ajuda. É claro que eu aceitei e expliquei a ela a minha técnica.

Desenvolvi essa prática anos antes para me ajudar a lembrar de ser autocompassiva e ainda a uso constantemente. É uma espécie de mantra de autocompaixão altamente eficaz para lidar com as emoções negativas. Sempre que eu noto algo em mim de que não gosto ou sempre que algo dá errado na minha vida, repito em silêncio as seguintes frases:

Este é um momento de sofrimento.
O sofrimento faz parte da vida.
Posso ser gentil comigo agora.
Posso me oferecer a compaixão de que preciso.

Acho essas frases particularmente úteis porque são curtas e de fácil memorização, e também porque invocam os três aspectos da autocompaixão simultaneamente. A primeira frase, “este é um momento de sofrimento”, traz consciência para o fato de que você está com dor. Se você estiver chateado porque ganhou alguns quilos ou se for parado por causa de uma infração no trânsito, pode ser difícil lembrar que esse é um momento de sofrimento digno de compaixão.

A segunda frase, “o sofrimento faz parte da vida”, lembra que a imperfeição é parte da condição humana compartilhada. Você não precisa lutar contra o fato de que as coisas não são exatamente como você gostaria. Esse é um estado normal, natural das coisas. Qualquer outra pessoa no planeta já passou por essa experiência e você certamente não está sozinho.

A terceira frase, “eu posso ser gentil comigo agora”, ajuda a trazer uma sensação de preocupação com o cuidado na sua experiência no presente. Seu coração começa a amolecer quando você se acalma e se conforta pela dor que está passando. A frase final, “posso me oferecer a compaixão de que preciso”, define firmemente a sua intenção de ser autocompassivo e lembra que você é digno de receber o cuidado compassivo.

Depois de algumas semanas praticando esse mantra de autocompaixão, Rachel começou a sentir uma pequena amostra da liberdade em sua mente constantemente negativa. Ela começou a ganhar consciência de seus pensamentos sombrios e depressivos, evitando se perder irremediavelmente na tristeza. Descobriu como ser menos autocrítica e não se queixar tanto do que estava errado em sua vida. Em vez disso, quando vivenciava pensamentos e emoções negativas, dizia suas frases na tentativa de se concentrar no fato de que estava sofrendo e precisava de cuidados.

Segundo Rachel, seu aspecto preferido da autocompaixão era “não ter que se enganar para fazê-la funcionar”. Diferentemente da prática de afirmações positivas, em que tentava se convencer de que estava tudo bem e tranquilo, a autocompaixão capacitava Rachel a aceitar e reconhecer o fato de que, às vezes, a vida é um saco. Mas não precisamos piorar as coisas. A chave para a autocompaixão não é negar o sofrimento, mas reconhecê-lo como algo completamente normal. Não há nada de errado com a imperfeição da vida se não esperarmos que ela seja perfeita.

“É estranho”, disse Rachel, “mas, às vezes, a minha negatividade desaparece assim que eu digo as frases que você me ensinou. Posso nem estar tentando fazê-la ir embora, ela só vai – puf! – como num show brega do David Copperfield”.

Rachel não se tornou uma espécie de Pollyanna. Ela ainda percebe o que está errado em uma situação antes de ver o que está certo. Mas a sua negatividade não a leva mais à depressão. Ela pode rir da escuridão de seus próprios pensamentos porque o pessimismo já não a controla totalmente. Quando se lembra de ser autocompassiva, é capaz de apreciar a metade cheia do copo ao mesmo tempo em que percebe a metade vazia.

Exercício
Desenvolvendo seu próprio mantra de autocompaixão

Um mantra de autocompaixão é um conjunto de frases memorizadas para repetir em silêncio sempre que você quiser se dar compaixão. São mais úteis no calor do momento, sempre que percebemos fortes sentimentos de angústia.

Você pode achar que as minhas frases funcionam, mas vale a pena brincar com as palavras para ver se você consegue encontrar frases que acolham melhor os seus sentimentos. O importante é evocar todos os três aspectos da autocompaixão, não importando as palavras em particular.

Há outras formulações possíveis para cada frase. A primeira (“Este é um momento de sofrimento”) também pode ser “Eu estou enfrentando um momento muito difícil agora” ou “É doloroso sentir isso agora” e assim por diante.

Outras formulações possíveis para a segunda frase (“O sofrimento faz parte da vida”) são “Todo mundo se sente assim às vezes” ou “Isso faz parte do ser humano” e assim por diante.

Outras formulações possíveis para a terceira frase (“Posso ser gentil comigo agora”) são “Posso acolher minha dor com ternura” ou “Que eu seja gentil e compreensiva comigo” e assim por diante.

Outras formulações possíveis para a frase final (“Posso me oferecer a compaixão de que eu preciso”) são “Eu mereço receber autocompaixão” ou “Vou tentar ser o mais compassivo possível” e assim por diante.

Encontre as quatro frases que parecem mais confortáveis para você e repita-as até que sejam memorizadas. Da próxima vez que se julgar ou tiver uma experiência difícil, use o seu mantra para se lembrar de ser autocompassivo. Essa é uma ferramenta útil para acalmar estados mentais problemáticos.

 

Fonte da foto: http://heatherhomemade.com/

Real, mas não verdadeiro

Por Vítor Barreto
em 26 Fevereiro, 2018
2 comentários
Ponte de vidro

Real, mas não verdadeiro

Trecho do livro "Coração aberto, mente aberta", em que Tsoknyi Rinpoche fala do medo que sentiu ao se deparar com uma ponte de vidro a centenas de metros de altura e de como esse medo pode ser abordado na prática.

O medo que senti era real – no sentido de que eu o estava experimentando plenamente –, mas não se baseava em circunstâncias verdadeiras. Era, isso sim, deflagrado por memórias residuais de experiências passadas – de cair de grandes alturas e sentir dor e de percepções errôneas das circunstâncias imediatas. A ponte obviamente era resistente e o medo que senti de atravessá-la não levava em conta a verdade de que muita gente estava andando por ela de um lado para o outro sem cair.

Por isso, tive que dar início a uma pequena conversa comigo mesmo. “Sim, o que você está sentindo é real. Reconheço e respeito isso. Mas esse medo não se baseia em condições verdadeiras.” Em algum momento, enquanto eu lutava com essa experiência, ocorreu-me uma espécie de mantra. Mantra é um termo sânscrito, geralmente entendido como uma combinação especial de sílabas antigas que formam um tipo de prece ou invocação para abrir nosso ser a uma conexão mais profunda com possibilidades além de nossa conceitualização imediata. Em meu singelo exemplo de tentar atravessar a ponte não houve sílabas misteriosas, apenas quatro palavras simples: real, mas não verdadeiro.

A repetição desse mantra se tornou uma prática para mim, um reconhecimento de que, quando me sinto de algum modo perturbado, as sensações de um desafio específico são reais em termos de pensamento e sensação. Porém, por maiores que sejam a intensidade e a frequência desses pensamentos e sensações, estas não se baseiam em circunstâncias imediatas. Comecei a ver que o desafio de atravessar a ponte na verdade era uma oportunidade de educar a parte de mim que se identificava com um padrão de medo.

Um mantra é basicamente um modo de conversar com seus pensamentos e sentimentos. É um método consagrado pelo tempo, referido, às vezes, como prece, mas na verdade é a abertura de uma conversa entre o coração e a mente.

Neste momento, convido você a participar de um pequeno exercício de mantra quando encarar desafios – seja atravessar uma ponte, ficar preso no engarrafamento e se atrasar para o trabalho ou um encontro, a relação com um colega de trabalho, gestor, cônjuge, parceiro ou com seus filhos, ou até a conversa com os funcionários do banco.

Faça uma bela respiração profunda, observando a inspiração e a expiração. A seguir, dedique um instante para saudar seus sentimentos como convidados. Diga “olá” e inicie uma conversa. Pode começar dizendo algo tipo: “Sim, sei que vocês são reais”.

A seguir pergunte: “Vocês são verdadeiros? Baseiam-se nas condições atuais ou se baseiam em experiências do passado?”.

Pergunte-se repetidamente se o que está experimentando é real ou verdadeiro, até poder aceitar mental e emocionalmente que seus sentimentos são reais, mas as condições em que se baseiam possivelmente não são verdadeiras. Essas pausas momentâneas podem transformar seu entendimento de quem você é e do que é capaz – e no mesmo instante encorajar outros a dar um passo em suas pontes e experimentar a mesma leveza.

Este livro é sobre atravessar pontes. Sobre fazer pausas que nos permitem abordar padrões (de medo, ressentimento, ciúme, tristeza e fúria) com gentileza e respeito. É sobre dedicar um momento para nos lembrarmos da verdade sobre quem realmente somos e nos lembrarmos de sermos gentis conosco quando nos enredamos em nossos padrões e sermos gentis com os outros que vivam situações semelhantes.

Prefácio de Richard Gere para o livro "Coração aberto, mente aberta"

Por Vítor Barreto
em 26 Fevereiro, 2018
Tsoknyi Rinpoche e Richard Gere

Prefácio

Se quiser encontrar um peixe,
olhe dentro do oceano.
Se quiser se encontrar, olhe
dentro de sua mente.

Conheci Tsoknyi Rinpoche em Litchfield, Connecticut, em 1997. Era meu primeiro retiro de dzogchen e eu estava bastante nervoso. Mas não havia realmente nada com o que me preocupar. Rinpoche era um professor tão bom e genuíno que rapidamente nos deixou à vontade com sua sagacidade, seu humor e sua completa naturalidade, ao mesmo tempo em que, repetidamente, nos desafiava a descobrir e repousar na verdade aberta de nossa essência natural, de nosso estado de ser natural. Desde então o considero um professor confiável e um amigo querido. É uma daquelas pessoas que se anseia por encontrar e estar junto, que é lembrada com um sorriso e uma risada. O encontro é sempre significativo. Tendo estudado com alguns dos gigantes da tradição budista tibetana, a maioria lamentavelmente já falecida, Rinpoche é
um elo poderoso e eloquente entre os grandes praticantes iogues do velho Tibete e o nosso atordoante século XXI. Ele fica completamente à vontade em ambos os contextos. E nos deixa à vontade também.

Rinpoche deu duro para entender as peculiaridades da mente humana a fim de poder nos ajudar de modo mais eficaz a romper nossas limitações e seriedade autoimpostas. Amor, sabedoria e bem -aventurança duradouros são possíveis. Mas podemos ficar bastante empacados em nós mesmos e em nossas ideias.

O amor essencial é escancarado e destituído de preconceito. É a liberdade no riso de uma criança, o bem-estar quando estamos felizes sem motivo específico. É definido por Rinpoche como “bondade, gentileza e afeto incondicionais, nascido da abertura e da inteligência, que pode ser nutrido até tornar-se uma chama ardente e brilhante que aqueça o mundo inteiro”. É o abraçar alegre e amoroso da vida em si – com toda a sua loucura.

Podemos encontrá-lo dentro de nós porque é o que somos. É nosso direito de nascença como seres humanos. Assim como temos dois braços e duas pernas, somos esse amor básico. Ele pode ser recoberto e confundido de tal maneira que podemos não reconhecê-lo ou senti-lo. Por isso passamos a vida atrás dele em relacionamentos, poder, dinheiro, coisas e ideias – como se nossa perda interior pudesse ser encontrada do lado de fora. E momentaneamente pode. Mas, no fim, isso só nos deixa ainda mais vazios, exaustos, receosos e zangados. Reconhecemos isso em algum lugar de nosso coração e, em nossos
momentos mais desnudos, sentimos o vazio e a tristeza subjacentes à superfície de nossas vidas ocupadas. Todavia, ansiamos por muito mais. Bem no fundo sentimos que a verdadeira felicidade é atingível.

Este livro nos desafia a encontrar o que perdemos temporariamente e a começar um caminho de reconexão com a nossa natureza mais profunda, que é alegre, aberta e livre de todas as condições e condicionamentos, como um céu radiante e sem nuvens. Reconhecer nossa natureza permite que o afeto da compaixão e do amor se expresse naturalmente em tudo que fazemos. Não é um caminho esotérico, nem requer aptidão especial. É prático, lógico e claro.
É simplesmente quem somos. No âmago, todos nós vibramos de amor. Somos amor que não tem limite e que pode brilhar em todos os momentos, estejamos felizes ou tristes.

Podemos ter conhecido alguém assim – alguns veem isso no Dalai Lama ou em Madre Teresa, ou talvez na própria mãe ou no pai. São pessoas que nos fazem sorrir instintivamente e sentir um afeto desimpedido, natural. Por quê? Porque elas cintilam com um tipo de amor e compaixão altruístas que reconhecemos como nossa verdadeira identidade. Este livro pode nos ajudar a encontrar aquela centelha inicial que se tornará uma fogueira ardente. Depende de nós.

Richard Gere

Como escolher o nível da prática

Por Vítor Barreto
em 20 Dezembro, 2017
Como escolher o nível da prática
No Ocidente, todo mundo quer a prática “mais elevada”, desejo que indica má interpretação do caminho. Todo mundo quer passar rápido pelas práticas básicas (ngön dro). Mas os grandes mestres fazem essas práticas a vida inteira. Eles continuam a contemplar a impermanência, a cultivar a compaixão, a fazer práticas de purificação, a fazer oferendas, e a praticar a Guru Yoga. Esse não é um estágio a ser superado. Os mestres e professores mais realizados fazem essas práticas e cultivam essas qualidades durante todo o caminho para os estágios mais elevados de realização porque elas sempre trazem benefícios.

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Jetsunma Tenzin Palmo, sobre paciência

Por Vítor Barreto
em 12 Dezembro, 2017
mulher irritada
Existem vários níveis para abordar o tema da paciência, mas primeiro devemos entender que podemos mudar nossa atitude. Por exemplo, em vez de ver alguém de quem não gostamos como um problema, podemos tentar ver que, na verdade, ele representa uma grande oportunidade para aprendermos. Precisamos de circunstâncias e pessoas difíceis em nossa vida para cultivarmos a paciência, e não podemos cultivar essa qualidade se não tivermos nada e nem ninguém nos desafiando.

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