Ponte de vidro

Real, mas não verdadeiro

Trecho do livro "Coração aberto, mente aberta", em que Tsoknyi Rinpoche fala do medo que sentiu ao se deparar com uma ponte de vidro a centenas de metros de altura e de como esse medo pode ser abordado na prática.

O medo que senti era real – no sentido de que eu o estava experimentando plenamente –, mas não se baseava em circunstâncias verdadeiras. Era, isso sim, deflagrado por memórias residuais de experiências passadas – de cair de grandes alturas e sentir dor e de percepções errôneas das circunstâncias imediatas. A ponte obviamente era resistente e o medo que senti de atravessá-la não levava em conta a verdade de que muita gente estava andando por ela de um lado para o outro sem cair.

Por isso, tive que dar início a uma pequena conversa comigo mesmo. “Sim, o que você está sentindo é real. Reconheço e respeito isso. Mas esse medo não se baseia em condições verdadeiras.” Em algum momento, enquanto eu lutava com essa experiência, ocorreu-me uma espécie de mantra. Mantra é um termo sânscrito, geralmente entendido como uma combinação especial de sílabas antigas que formam um tipo de prece ou invocação para abrir nosso ser a uma conexão mais profunda com possibilidades além de nossa conceitualização imediata. Em meu singelo exemplo de tentar atravessar a ponte não houve sílabas misteriosas, apenas quatro palavras simples: real, mas não verdadeiro.

A repetição desse mantra se tornou uma prática para mim, um reconhecimento de que, quando me sinto de algum modo perturbado, as sensações de um desafio específico são reais em termos de pensamento e sensação. Porém, por maiores que sejam a intensidade e a frequência desses pensamentos e sensações, estas não se baseiam em circunstâncias imediatas. Comecei a ver que o desafio de atravessar a ponte na verdade era uma oportunidade de educar a parte de mim que se identificava com um padrão de medo.

Um mantra é basicamente um modo de conversar com seus pensamentos e sentimentos. É um método consagrado pelo tempo, referido, às vezes, como prece, mas na verdade é a abertura de uma conversa entre o coração e a mente.

Neste momento, convido você a participar de um pequeno exercício de mantra quando encarar desafios – seja atravessar uma ponte, ficar preso no engarrafamento e se atrasar para o trabalho ou um encontro, a relação com um colega de trabalho, gestor, cônjuge, parceiro ou com seus filhos, ou até a conversa com os funcionários do banco.

Faça uma bela respiração profunda, observando a inspiração e a expiração. A seguir, dedique um instante para saudar seus sentimentos como convidados. Diga “olá” e inicie uma conversa. Pode começar dizendo algo tipo: “Sim, sei que vocês são reais”.

A seguir pergunte: “Vocês são verdadeiros? Baseiam-se nas condições atuais ou se baseiam em experiências do passado?”.

Pergunte-se repetidamente se o que está experimentando é real ou verdadeiro, até poder aceitar mental e emocionalmente que seus sentimentos são reais, mas as condições em que se baseiam possivelmente não são verdadeiras. Essas pausas momentâneas podem transformar seu entendimento de quem você é e do que é capaz – e no mesmo instante encorajar outros a dar um passo em suas pontes e experimentar a mesma leveza.

Este livro é sobre atravessar pontes. Sobre fazer pausas que nos permitem abordar padrões (de medo, ressentimento, ciúme, tristeza e fúria) com gentileza e respeito. É sobre dedicar um momento para nos lembrarmos da verdade sobre quem realmente somos e nos lembrarmos de sermos gentis conosco quando nos enredamos em nossos padrões e sermos gentis com os outros que vivam situações semelhantes.