Tsoknyi Rinpoche e Richard Gere

Prefácio

Se quiser encontrar um peixe,
olhe dentro do oceano.
Se quiser se encontrar, olhe
dentro de sua mente.

Conheci Tsoknyi Rinpoche em Litchfield, Connecticut, em 1997. Era meu primeiro retiro de dzogchen e eu estava bastante nervoso. Mas não havia realmente nada com o que me preocupar. Rinpoche era um professor tão bom e genuíno que rapidamente nos deixou à vontade com sua sagacidade, seu humor e sua completa naturalidade, ao mesmo tempo em que, repetidamente, nos desafiava a descobrir e repousar na verdade aberta de nossa essência natural, de nosso estado de ser natural. Desde então o considero um professor confiável e um amigo querido. É uma daquelas pessoas que se anseia por encontrar e estar junto, que é lembrada com um sorriso e uma risada. O encontro é sempre significativo. Tendo estudado com alguns dos gigantes da tradição budista tibetana, a maioria lamentavelmente já falecida, Rinpoche é
um elo poderoso e eloquente entre os grandes praticantes iogues do velho Tibete e o nosso atordoante século XXI. Ele fica completamente à vontade em ambos os contextos. E nos deixa à vontade também.

Rinpoche deu duro para entender as peculiaridades da mente humana a fim de poder nos ajudar de modo mais eficaz a romper nossas limitações e seriedade autoimpostas. Amor, sabedoria e bem -aventurança duradouros são possíveis. Mas podemos ficar bastante empacados em nós mesmos e em nossas ideias.

O amor essencial é escancarado e destituído de preconceito. É a liberdade no riso de uma criança, o bem-estar quando estamos felizes sem motivo específico. É definido por Rinpoche como “bondade, gentileza e afeto incondicionais, nascido da abertura e da inteligência, que pode ser nutrido até tornar-se uma chama ardente e brilhante que aqueça o mundo inteiro”. É o abraçar alegre e amoroso da vida em si – com toda a sua loucura.

Podemos encontrá-lo dentro de nós porque é o que somos. É nosso direito de nascença como seres humanos. Assim como temos dois braços e duas pernas, somos esse amor básico. Ele pode ser recoberto e confundido de tal maneira que podemos não reconhecê-lo ou senti-lo. Por isso passamos a vida atrás dele em relacionamentos, poder, dinheiro, coisas e ideias – como se nossa perda interior pudesse ser encontrada do lado de fora. E momentaneamente pode. Mas, no fim, isso só nos deixa ainda mais vazios, exaustos, receosos e zangados. Reconhecemos isso em algum lugar de nosso coração e, em nossos
momentos mais desnudos, sentimos o vazio e a tristeza subjacentes à superfície de nossas vidas ocupadas. Todavia, ansiamos por muito mais. Bem no fundo sentimos que a verdadeira felicidade é atingível.

Este livro nos desafia a encontrar o que perdemos temporariamente e a começar um caminho de reconexão com a nossa natureza mais profunda, que é alegre, aberta e livre de todas as condições e condicionamentos, como um céu radiante e sem nuvens. Reconhecer nossa natureza permite que o afeto da compaixão e do amor se expresse naturalmente em tudo que fazemos. Não é um caminho esotérico, nem requer aptidão especial. É prático, lógico e claro.
É simplesmente quem somos. No âmago, todos nós vibramos de amor. Somos amor que não tem limite e que pode brilhar em todos os momentos, estejamos felizes ou tristes.

Podemos ter conhecido alguém assim – alguns veem isso no Dalai Lama ou em Madre Teresa, ou talvez na própria mãe ou no pai. São pessoas que nos fazem sorrir instintivamente e sentir um afeto desimpedido, natural. Por quê? Porque elas cintilam com um tipo de amor e compaixão altruístas que reconhecemos como nossa verdadeira identidade. Este livro pode nos ajudar a encontrar aquela centelha inicial que se tornará uma fogueira ardente. Depende de nós.

Richard Gere