Trecho da introdução de Educação valente

Postado por Vítor Barreto em

Um trecho da introdução de Educação valente

Comportamentos subclínicos

Constatei que muitos pais preferem que seu filho tenha um diagnóstico concreto, como ansiedade ou distúrbio de aprendizado, para o qual possa haver um especialista ou um tratamento, a uma avaliação de que a criança simplesmente tem recursos internos frágeis e baixas habilidades de enfrentamento. Alguns chamam isso de “medicalização” dos comportamentos infantis. Embora não seja racional, isso se encaixa no reflexo que nós, pais, temos de colocar a responsabilidade em algo externo aos nossos filhos.

Quando uma criança recebe um diagnóstico, alguns pais utilizam esses rótulos até mesmo para confortar e socorrer os filhos. “Bem, ele tem TDAH, portanto precisa da minha ajuda para fazer a lição de casa todas as noites” ou “Ela não sabe controlar a raiva, então eu só preciso assimilar e me adaptar” ou “O tédio desencadeia a ansiedade dele, por isso preciso manter os seus horários de atividades sempre controlados”. Os esforços dos pais para “administrar” os filhos se transformam em uma maratona. Com ou sem um rótulo ou um diagnóstico, hoje em dia os pais andam na ponta dos pés para lidar com o humor e o comportamento dos filhos. Por que sentimos tanto medo de responsabilizar as crianças por um comportamento inadequado?

Além disso, o desenvolvimento da força interior dos nossos filhos fica em grande parte ausente do nosso discurso sobre a sua educação. Palavras como bravura, desenvoltura e adaptabilidade não fazem parte do vocabulário atual sobre saúde mental e terapêutica. A resiliência é vista como uma capacidade inata que algumas crianças de sorte têm, e não como uma característica que pode ser fomentada. Hoje tratamos os nossos filhos como bebês – nós, em grande parte, os tratamos como se fossem mais novos do que as suas idades biológicas de fato.

Muitas crianças que aparecem nos consultórios de terapeutas e especialistas em aprendizagem não se enquadram em diagnósticos claros. Elas apresentam o que chamamos de “comportamentos subclínicos”, com os quais os pais não sabem lidar. Por exemplo: crianças que desistem e agem como se estivessem indefesas e impotentes, crianças com uma teimosia ferrenha, crianças dissimuladas e enganadoras, crianças irritáveis, com explosões de raiva, crianças que se fecham e mostram-se evasivas com os pais, crianças  inteligentes e brilhantes que manipulam os pais, negociadores habilidosos e crianças dramáticas, de comportamento emocional exagerado. Algumas estabelecem um ciclo que percorre uma mistura destes comportamentos.

É óbvio que existem aquelas que apresentam um diagnóstico claro sobre a saúde mental ou dificuldades de aprendizagem, e não apenas habilidades fracas de enfrentamento. Nesses casos, estes tipos de comportamentos subclínicos surgem com frequência misturados em seus distúrbios, frustrando os profissionais e complicando o processo de tratamento.

Muitas das crianças que apresentam esses comportamentos estão presas a padrões de comportamento problemáticos que representam na relação entre pais e filhos. Deve-se também observar que todos esses comportamentos produzem alguns resultados desejáveis para a criança: uma mudança de regras, os pais cederem, a eliminação de uma tarefa, ou simplesmente o desencadeamento de uma reação emocional por parte de um dos pais, que pode parecer algo muito intenso para uma criança. No mínimo, esses comportamentos sem dúvida chamam a atenção dos pais. Através deles, as crianças estão obtendo o controle do ambiente familiar, em vez de se adaptarem internamente e amadurecerem – e vão se tornando dependentes de uma camada de couro protetora que amorteça o caminho para elas.

Criança caminhando - Educação valente

Por que confeccionar sapatinhos?

Hoje, muitos indivíduos jovens são carentes de recursos internos, adaptabilidade e resiliência. As crianças entram em pânico quando vivenciam o desconforto e correm direto para a mãe ou para o pai, como se eles tivessem as ferramentas para consertar tudo. (Deve-se observar que muitos pais gostam e reforçam esse processo, interpretando-o como “proximidade” na relação com os filhos.) Os pais acreditam que é sua responsabilidade sempre se certificar de que o filho esteja feliz. No entanto, quando começam a pensar que podem resolver todas as questões dos filhos, inevitavelmente se deparam com problemas — em seu devido tempo, a criança vai querer que os pais resolvam alguma coisa que esteja verdadeiramente fora do seu domínio. É melhor deixar que as crianças aprendam a resolver problemas nos pequenos obstáculos e desconfortos de suas vidas — o ideal é que isso ocorra enquanto são jovens, antes de vivenciarem sua primeira rejeição social ou o primeiro fracasso acadêmico, esportivo ou artístico.

Todos nós nos direcionamos para a felicidade, mas a felicidade não é a questão. Achamos que a felicidade é algo que deve estar presente o tempo todo; se não estiver, então alguma coisa está errada. Na realidade, a felicidade vem e vai. Precisamos nos afastar um pouco da noção de felicidade constante e avançar em direção a um conceito de saúde emocional.

Em vez de concentrarmos toda a nossa atenção e as nossas pesquisas na felicidade, precisamos aprender apenas a conviver com a tristeza, a decepção, a preocupação, a raiva, a vergonha, o conflito, o fracasso, até que esses sentimentos cedam. Se estivermos sufi cientemente à vontade com todas as emoções e pudermos vivenciá-las sem reatividade, é muito provável que sejamos emocionalmente saudáveis. É por isso que precisamos deixar que as crianças tomem conhecimento de todos os seus sentimentos.

O budismo ensina que anicca, ou a impermanência, é uma característica de todas as coisas. Em última análise, a impermanência é nossa amiga. Ela permite que a tristeza, a dor e a decepção se desvaneçam para se transformarem em estados emocionais novos. Quando processamos as emoções de uma forma natural, elas são fluidas. A impermanência nos mantêm presentes e atentos — a vida está sempre mudando, se deslocando, se transformando em algo novo.

Este livro utiliza metáforas experimentadas e testadas com crianças e pais, reunidas a partir dos meus anos de experiência com a terapia na natureza, como coaching para pais e mães, das minhas próprias experiências como mãe e dos meus estudos do budismo. As crianças se conectam mais facilmente com as metáforas do que com sentimentos complicados.

Os “sapatinhos” são a metáfora que utilizo para me referir aos recursos internos. Os sapatinhos nos levam do ponto A ao ponto B, quer estejamos andando dentro da nossa casa, até a escola ou até o Monte Everest. Eles são o conjunto de habilidades para percorrermos o nosso terreno emocional.

Os recursos internos que descrevo neste livro são os seguintes:

  • Gratificação adiada: habilidade para trabalhar em função de um objetivo definido sem uma recompensa imediata.
  • Resolução de problemas: habilidade para deslocar-se de um determinado estado rumo a um objetivo mais desejado.
  • Adaptabilidade: habilidade de lidar com perturbações inesperadas.
  • Regulação emocional: habilidade para entrar e sair de diferentes estados e comportamentos.
  • Tolerância ao sofrimento: habilidade de conviver com o desconforto.
  • Motivação interna: centro interno (em oposição a externo) de controle que impulsiona o comportamento.
  • Autodisciplina: capacidade de motivar a si próprio, independentemente do estado emocional.
  • Aceitação da impermanência: a consciência de que nada dura para sempre.

 

No livro O Caminho do Bodhisattva, Shantideva afirma: “Deveríamos preservar as nossas mentes com o mesmo cuidado que protegeríamos um braço quebrado ou ferido em meio a uma multidão descontrolada.” Esses recursos internos são as ferramentas que preservarão as nossas mentes e os nossos estados emocionais. A “multidão descontrolada” se refere às vicissitudes da vida. Quando conseguirmos tolerar o sofrimento, nos regularmos emocionalmente, nos motivarmos sem a necessidade de uma gratificação imediata, nos adaptarmos às perturbações e reconhecermos que a
mudança é algo constante, seremos capazes de manter uma mente mais resiliente, estável e aberta. Os budistas têm trabalhado com a mente há milênios; agora é a hora de trazer esses conceitos para a educação das crianças da nossa época.

Sem sapatinhos, as crianças estão expostas a ameaças graves como o amadurecimento atrasado, problemas de saúde mental, irresponsabilidade, impulsividade e comportamentos autodestrutivos — apesar da presença constante dos pais pairando em volta —, pois elas não sabem se autogerenciar e se adaptar à paisagem cambiante da vida. Em vez disso, devemos incentivá-las a experimentar suas próprias emoções, enfrentar seus próprios obstáculos e construir seus recursos internos. Podemos nos comunicar com os nossos filhos e infundir neles a ideia de que cada um tem uma habilidade inata para resolver problemas — essa habilidade só precisa ser aperfeiçoada e desenvolvida. Se quisermos que nossos filhos tenham força interior, temos que os ajudar a cultivá-la. A nossa mensagem deve ser “você consegue”, em vez de “deixe que eu resolvo”.


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