A prática de afrouxar | Trecho de "A lógica da fé"

Leia abaixo o trecho selecionado no vídeo:

Infelizmente, o termo formal em inglês (e em português) para a investigação da natureza da mente e da experiência é, no contexto de pratityasamutpada, meditação analítica. Considero isso algo infeliz apenas porque é um termo que normalmente desanima as pessoas. Como ele soa para você? Pode ser que, como outras pessoas, você goste de analisar as coisas. Mas pode ser que ache que o termo meditação analítica soe tão convidativo quanto cuidar dos dentes. Talvez você ache complicado entender a conexão entre espiritualidade
e análise. É possível que você tenha adentrado o caminho espiritual para se livrar dos conceitos e prefira adotar uma abordagem mais intuitiva e emocional diante das coisas.

Analisar uma coisa ou ideia geralmente significa metodicamente desmontá-la e escrutiná-la. O processo de desmontar ou desagrupar algo faz com que algumas pessoas se sintam alheias ao seu próprio corpo ou desconectadas – pode haver uma frieza envolvida, como se, ao analisar as coisas, você estivesse reduzindo o mundo que experiencia a pó. Em outros momentos, a análise só torna as coisas mais complicadas e desafiadoras de entender, como quando encontramos muitas opções ao fazer uma busca na internet. Você começa com uma só ideia e termina com mais teorias, mais informações, mais dúvidas e mais preocupações do que gostaria.

Se você checar a etimologia da palavra análise, pode ser que se surpreenda ao aprender que ela vem da raiz grega ana, que significa “quebrar”, e lise, que significa “afrouxar”. Essa definição encaixa-se perfeitamente com o propósito da meditação analítica, que é desmontar e afrouxar suas suposições sobre as coisas. Por meio da análise, você se desloca de um mundo grosseiro de ideias abstratas para uma relação mais direta com o que está de fato acontecendo.

Sempre que você desmonta ou analisa alguma coisa – mesmo uma palavra, como a palavra análise, por exemplo – algo de valor virá disso. Se você coloca sua atenção em qualquer coisa – seja essa coisa uma ideia ou um momento de raiva ou desespero – sua análise atenta irá revelar todo tipo de surpresas. Novas linguagens e ideias emergirão – quem sabe até poesia. Não que uma nova expressão dessas se torne então a melhor já pensada, o exemplo máximo da ideia certa, ou o uso correto do termo. Você nunca resolverá os mistérios do universo. Mas abrirá as portas para que mais vida emerja e, como resultado,
você pode apreciar melhor o processo de permanecer aberta e participativa, como se entrasse no modo de ouvir atentamente uma entrevista fascinante, como no exemplo que mencionei antes.

Quando estiver praticando meditação analítica, é crucial que você faça a relação entre as ideias e a sua própria experiência direta, em vez de simplesmente aceitar as coisas por ouvir falar delas. Por exemplo, se alguém lhe diz que tudo surge interdependentemente, e você pensa, “Legal, isso faz sentido”, você terá nas mãos apenas informação intelectual que irá caminhar de forma paralela à sua própria experiência, nunca verdadeiramente penetrando-a e nunca liberando a confiança que surge apenas de ver as coisas por você mesma.

Espero ter elucidado o espírito dessa abordagem e que o termo meditação analítica agora faça sentido para você. Você está afrouxando esse sentido de realidade, o que a ajuda a ver a natureza ilusória das coisas, e é esta a razão do uso do termo analítica. Ao fazer isso, você está cultivando um modo diferente de olhar e conhecer que percebe a natureza da interdependência e da dimensionalidade aberta.

Quando permite que sua consciência permaneça participativa e aberta, sem sucumbir à necessidade de afirmar ou negar a experiência, você pode facilmente testemunhar a atividade natural da mente. A técnica de manter a mente aberta se refere ao aspecto meditativo da meditação analítica.

Elizabeth Mattis Namgyel

 

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