Atenção plena ao corpo e o deslumbramento (Trecho do livro "Coração aberto, mente aberta")

Forma

Atenção plena ao corpo, às vezes, é traduzida como Atenção Plena à Forma, uma prática que estende a atenção a todos os tipos de forma: a mobília e outros elementos que encontramos em uma sala, na rua, num restaurante, num trem etc. É essencialmente uma prática de nos aterrarmos na realidade relativa em que operamos.

Normalmente, nosso hábito de percepção visual é um pouco impreciso. Na realidade, não vemos a mesa da cozinha muito claramente, não vemos nossas mãos muito distintamente. Tornam-se objetos generalizados. Assim, além de ajudar a nos aterrar, a Atenção Plena ao Corpo – ou, em termos mais gerais, Atenção Plena à Forma – também oferece a oportunidade de aguçar nossas aptidões perceptivas.

Então, dedique um minuto para focar em alguma forma neste momento, onde quer que você esteja. A forma não importa. Pode ser sua mão, uma mesa, o livro que você segura numa mão ou o iPod na outra.

Apenas observe...

Apenas veja...

Certo, passou um minuto.

Como foi a experiência?

Você se sentiu um pouco mais presente? Um pouco mais aterrado? Ou talvez um pouco menos apavorado?

Qualquer uma dessas reações é possível quando você começa a se relacionar com atenção plena ao corpo e ao mundo das formas. Afinal de contas, leva-se algum tempo para quebrar velhos hábitos. Essa simples disposição para ver, para colocar a atenção pura no que vemos, pode ser um pouco desafiadora de início. Mas, depois de um tempo, tais experimentos ficam mais fáceis.

E, tendo começado, podemos estender a atenção, a apreciação, à sala, ao mundo, a todo o universo da forma: às árvores do lado de fora da janela, ou à grama, ou aos canteiros de flor. Mesmo sentados em uma cadeira na sala, podemos começar a apreciar o fato de fazermos parte de um reino muito maior de formas nítidas e presentes. E, quando levantamos da cadeira, podemos começar a carregar essa consciência, esse estado alerta e essa apreciação conosco.

Recordando o deslumbramento

Quando crianças, nos apaixonamos pelo assombro de estarmos vivos. Nosso corpo nos fascina, as coisas ao redor nos fascinam. De certo modo, a prática da Atenção Plena ao Corpo é um grande passo para se reapaixonar pelo puro deslumbramento de estar vivo. Mas não podemos efetuar isso de uma vez só, assim como não podemos atravessar uma ponte em uma passada. Temos que conduzir nossas experiências um passo de cada vez, aprendendo a caminhar antes de aprender a correr.

Como pai, é claro que vi que não levou muito tempo para minhas filhas tentarem correr após terem aprendido a caminhar. Com grande frequência elas se encrencavam, como a maioria de nós. Quando crianças, podemos correr atrás de uma bola numa rua movimentada. Quando adultos, podemos nos ver correndo atrás de uma pessoa que não nos quer bem ou correndo atrás de um papel na sociedade para o qual podemos não ser talhados.

A Atenção ao Corpo ajuda a reagir à tendência de correr – ou pelo menos questionar do que estamos correndo ou para onde estamos correndo. É o primeiro passo para parar e olhar nossa identidade de “eu”, e para transpor as histórias que nos contamos a nosso respeito e que em muitos casos podem inibir nossas tremendas possibilidades.

Por exemplo, recentemente fiquei sabendo de um aluno que correu para a sala de seu professor em um dia de grande aflição. “Minha lombar está toda tensionada”, ele exclamou, “e sou tão travado que nunca serei capaz de me relacionar com outras pessoas, serei sempre um pária, não consigo me comunicar”.

O professor olhou para ele e disse: “Sua lombar está tensa”.

“Sim! Sim!”, o aluno gritou. “Por isso simplesmente não consigo me relacionar com as outras pessoas. Não consigo sentir compaixão. Vou ficar sozinho para sempre.”

O professor olhou para ele de novo e disse: “Suas costas estão tensas”.

“Foi o que eu disse”, replicou o aluno, ansioso. “Por isso estou isolado das outras pessoas. É terrível.”

Depois de outro minuto, o professor olhou para ele e disse: “Suas costas estão tensas. O resto que você está dizendo é história”.

Mas onde vivem essas histórias?

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1 comentário

  • Olá Vítor! Esse trecho é de qual livro? Um abraço!

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