Quem é você? (Trecho do livro "Apaixonado pelo mundo")

Quem é você? (Trecho do livro "Apaixonado pelo mundo")

Você é o Mingyur Rinpoche?

Meu pai me fez essa pergunta logo depois que comecei a estudar com ele, aos nove anos de idade. Era tão gratificante saber a resposta certa que  orgulhosamente declarei: Sim, eu sou.

A seguir, ele perguntou: você pode me mostrar uma coisa em especial que faz de você Mingyur Rinpoche?

Olhei para a parte frontal do meu corpo até meus pés. Olhei para minhas mãos. Pensei no meu nome. Pensei em quem eu era em relação aos meus pais e a meus irmãos mais velhos. Não consegui chegar a uma resposta. Meu pai, então, fez a busca pelo meu verdadeiro eu parecer uma caça ao tesouro e, sinceramente, procurei até debaixo das pedras e atrás das árvores. Aos onze anos, comecei meus estudos no Sherab Ling, monastério situado no norte da Índia, onde trouxe essa busca para dentro de mim por meio da meditação. Dois anos depois, entrei no tradicional retiro de três anos, período de intenso treinamento mental.

Durante esse período, nós, monges noviços, fazíamos vários exercícios diferentes, cada um aprofundando nossa compreensão dos níveis mais sutis da realidade. A palavra tibetana para meditação, gom, significa “familiarizar-se com”: desenvolver familiaridade com o funcionamento da mente, como ela cria e molda nossas percepções de nós mesmos e do mundo, entender de que modo as camadas externas da mente — os rótulos construídos — funcionam como roupas que caracterizam a nossa identidade social e ocultam o estado nu e não fabricado da nossa mente original, sejam elas ternos, jeans, uniformes ou túnicas budistas.

Na época em que fui para esse retiro, entendi que o valor dos rótulos muda de acordo com as circunstâncias e o consenso social. Eu já havia concluído que eu não era o meu nome, o meu título ou o meu status; meu eu essencial não poderia ser definido por posição social ou atribuição. Apesar disso, essas mesmas designações, vazias de significado essencial, tinham definido os meus dias: sou um monge; um filho, um irmão e um tio; um budista; um professor de meditação; um tulku, um abade e um escritor; um nepalês tibetano; um ser humano. Qual dessas identidades descreve o meu eu essencial?

Fazer esta lista é um exercício simples. Há apenas um problema: a conclusão inevitável contradiz toda e qualquer hipótese que nos é tão cara — conforme eu estava prestes a aprender mais uma vez. Desejava ir além do eu relativo — o eu que se identifica com esses rótulos. Sabia que, embora as categorias sociais desempenhem um papel dominante na nossa história pessoal, elas coexistem com uma realidade maior além dos rótulos. Geralmente, não reconhecemos que nossa identidade social é moldada e limitada pelo contexto, e que essas camadas externas de nós mesmos existem dentro de uma realidade ilimitada. Padrões habituais encobrem essa realidade ilimitada, a obscurecem, mas ela está sempre lá, pronta para ser desvelada.

Quando não somos reduzidos pelos padrões habituais que definem como nos vemos e nos comportamos no mundo, temos acesso às qualidades vastas da mente, que não dependem de circunstâncias ou conceitos, e estão sempre presentes; por isso a chamamos de fundamental, ou mente absoluta, a mente da realidade absoluta, que é a mesma mente da consciência plena pura que expressa a própria essência da nossa verdadeira natureza. Diferentemente da mente intelectual e conceitual e do amor ilimitado de um coração aberto, essa essência da realidade não está associada a um local nem a qualquer tipo de materialidade. Está em toda parte e em lugar nenhum. É como o céu — tão completamente integrado à nossa existência que nunca paramos para questionar sua realidade ou reconhecer suas qualidades. Devido ao fato de a consciência plena pura estar tão presente em nossa vida quanto o ar que respiramos, podemos acessá-la em qualquer lugar, a qualquer momento.

Eu havia desenvolvido certa capacidade de manter as perspectivas relativa e absoluta ao mesmo tempo. No entanto, nunca vivi um dia sem pessoas e suportes que espelhassem a colcha de retalhos que se tornou conhecida para mim e para os outros como Mingyur Rinpoche: infalivelmente educado, pronto a sorrir, com um comportamento reservado, asseado, barbeado, usando óculos sem aro e de armação dourada. Agora eu me perguntava como essas identidades seriam encenadas na estação de Gaya. Já estive lá muitas vezes, mas sempre com pelo menos um assistente. Ou seja, nunca deixei de ter uma referência de posição social e nunca fui desafiado a depender apenas dos meus próprios recursos internos.

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