O problema da raiva justificada (Trecho do livro "As quatro incomensuráveis")

O PROBLEMA DA RAIVA JUSTIFICADA

Embora tenha total confiança de que o que acabei de dizer é verdadeiro, sei que não é só isso. Quando vemos algo muito errado no mundo, a agressão e o ódio podem ser a nossa tentativa malconcebida de responder. Vemos algo terrível acontecendo e surge uma paixão mas, quando nossos horizontes se estreitam, não enxergamos as muitas opções que existem. A cobertura da mídia nos mostra miríades de coisas que não são como deveriam ser, e a nossa natureza búdica nos chama genuinamente com paixão e diz: algo precisa ser feito. Mas, à medida que esse chamado penetra em nossa psique, em nosso condicionamento, em nossos horizontes, ele se torna distorcido e, por fim, surge como um grito. Claro que o resultado disso é apenas dor, e não é uma solução. De dentro da nossa visão de mundo limitada, não sabíamos que havia outras opções, outras maneiras de perceber essa onda de energia. O ódio é terrivelmente poderoso, mas uma coisa mais poderosa ainda é a compaixão. Eles vêm da mesma fonte, mas o ódio fica distorcido e deformado. E isso faz com que perca o seu poder, embora possa não parecer. Existem poderes maiores que o ódio – aqueles que emergem da natureza búdica sem qualquer distorção. Esse poder é inimaginável.

Aceitar qualquer mal passivamente é ser conivente com o mal. Existem duas verdades importantes aqui. Talvez o melhor que possamos fazer por nós mesmos seja ganharmos acesso a mais opções. Aristóteles identificou certa qualidade do espírito humano que é a ira, a raiva, que também pode ser traduzida como sagacidade ou espirituosidade. Existe uma impetuosidade, algo flamejante na ira. Aristóteles disse que, se reprimíssemos a nossa ira, diminuiríamos a nossa humanidade. Enfraqueceríamos algo que tem muito valor, algo importante para a nossa plenitude como seres humanos. Aquino, baseando-se em Aristóteles, descreve mais detalhadamente esse conceito. Não devemos suprimir completamente a ira, diz ele, pois sucumbiremos à apatia diante de grandes injustiças.

Mas o que a agressão tem a ver com a iluminação? Absolutamente nada. Ela vai na direção oposta. Porém, brota da mesma fonte. A fonte da ira é a natureza búdica. É uma paixão, uma chama que pode expressar-se igualmente na compaixão, no amor apaixonado ou mesmo na ferocidade, mas sem a distorção perversa do ódio.

Há um lugar para a ferocidade no budismo tibetano, mas essa talvez seja a ferramenta mais perigosa que um ser humano possa utilizar. Eu talvez nem precise explicar porque já existe muita ferocidade no mundo e, pelo menos, noventa e nove por cento das vezes ela é mal-utilizada. Mas não é algo que queremos erradicar para sempre, pois pode haver momentos muito raros em que a ferocidade é a resposta mais eficaz para aliviar o sofrimento, corrigir uma desarmonia ou trazer mais bem-estar ao mundo. Mas a ferocidade é quase sempre mal-utilizada.

Em minha própria experiência pessoal, não consigo me lembrar de um único incidente em toda a minha vida em que tenha expressado raiva e, ao olhar para trás, possa dizer que aquela foi a melhor resposta. Algo foi feito, talvez, mas não foi o ideal. Em todos os casos, alguma outra coisa teria funcionado melhor. Em princípio, acho possível que a ferocidade seja apropriada, mas não confio em minhas próprias limitações. Não confio que minha própria natureza búdica esteja suficientemente manifesta a ponto de permitir que a raiva passe desimpedida quando começar a surgir. Antes de permitir que isso aconteça, gostaria de ter levado esta prática de bondade à fruição, de ter aprendido a não fazer distinção entre amigo e inimigo. Se eu for capaz de manifestar bondade amorosa por meu amigo e por meu inimigo, sem qualquer barreira, não precisarei temer a minha própria raiva. Mas até que essas barreiras sejam removidas, a minha raiva provavelmente causará mais danos do que benefícios.

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