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Uma viagem para a totalidade (um trecho do livro Autocompaixão com um exercício)

Postado por Vítor Barreto em


O trecho a seguir é parte do livro "Autocompaixão" e inclui um exercício. Para saber mais, você pode comprar o livro nas melhores livrarias e também aqui na Lúcida Letra

 

Percorrer o caminho para tornar-se um todo leva algum tempo e não acontece do dia para a noite. Rachel é minha amiga espirituosa e inteligente da época da pós-graduação. Apesar de suas qualidades, ela também conseguia ser um pouco vazia. A camiseta que estava usando quando a conheci praticamente a resume: “a vida é traiçoeira, porque se fosse apenas injusta, seria fácil”. Rachel era uma clássica pessimista, sempre via o copo meio vazio. Mesmo quando tudo estava relativamente bem, com apenas poucos desafios a enfrentar, Rachel se concentrava quase exclusivamente no que estava errado. Ela não dava valor às coisas boas da vida dela, pois não representavam um problema que precisasse ser resolvido. Sua postura resultava muitas vezes em ansiedade, frustração e depressão.

Lembro-me de quando Rachel fez um bolo de chocolate caseiro para o meu aniversário. O bolo estava delicioso, apesar do supermercado não ter sua marca favorita de chocolate e ela ter sido forçada a usar uma marca alternativa, não tão boa. Não importava o quanto eu lhe dissesse que tinha amado o bolo, ela só falava da qualidade inferior do chocolate (acho que seu comentário foi “parece uma imitação da Ding Dong (bolo de chocolate com baunilha”.) Ela se deixou levar por esse mau humor obsessivo com o bolo e acabou indo embora mais cedo da minha festa de aniversário.

A negatividade da Rachel não me incomodava tanto e muitas vezes me fazia rir. Certa vez lhe perguntei como tinha sido um encontro às escuras. “Uma chatice. Perguntei se estava tudo bem e ele realmente me respondeu”. Na pós-graduação, Rachel namorou um rapaz que não a achava tão engraçada e terminou com ela por ser tão negativa o tempo todo. Desde então ela se fechou ainda mais, o que, claro, só piorou as coisas.

Após terminar os estudos, Rachel jurou que mudaria seu jeito de ser. Leu livros sobre pensamento positivo e começou a enunciar diariamente afirmações otimistas, como “sou uma pessoa radiante de energia positiva” e “estou me tornando cada vez melhor todos os dias, em todos os sentidos”. Esforçou-se para pensar positivamente em qualquer circunstância, mesmo quando se sentia infeliz por dentro, e se manteve assim durante alguns meses – mas não durou mais que isso. Seu comportamento parecia falso e demandava muito esforço.

Rachel e eu mantivemos contato ao longo dos anos. Quando ela me perguntou sobre a minha vida, falei da minha pesquisa sobre a autocompaixão. No início, ela não ficou muito impressionada. “Não é apenas um conto da carochinha para disfarçar o fato de que a vida é uma merda?”. Como éramos velhas amigas e ela valorizava a minha opinião, sua resistência inicial cedeu com o tempo, e Rachel foi capaz de me ouvir quando lhe expliquei o conceito. Ela não disse nada por um tempo e eu imaginei que ela fosse revirar os olhos e ignorar tudo o que eu tinha dito. Em vez disso, ela me disse que queria experimentar ser mais compassiva consigo mesma e pediu minha ajuda. É claro que eu aceitei e expliquei a ela a minha técnica.

Desenvolvi essa prática anos antes para me ajudar a lembrar de ser autocompassiva e ainda a uso constantemente. É uma espécie de mantra de autocompaixão altamente eficaz para lidar com as emoções negativas. Sempre que eu noto algo em mim de que não gosto ou sempre que algo dá errado na minha vida, repito em silêncio as seguintes frases:

Este é um momento de sofrimento.
O sofrimento faz parte da vida.
Posso ser gentil comigo agora.
Posso me oferecer a compaixão de que preciso.

Acho essas frases particularmente úteis porque são curtas e de fácil memorização, e também porque invocam os três aspectos da autocompaixão simultaneamente. A primeira frase, “este é um momento de sofrimento”, traz consciência para o fato de que você está com dor. Se você estiver chateado porque ganhou alguns quilos ou se for parado por causa de uma infração no trânsito, pode ser difícil lembrar que esse é um momento de sofrimento digno de compaixão.

A segunda frase, “o sofrimento faz parte da vida”, lembra que a imperfeição é parte da condição humana compartilhada. Você não precisa lutar contra o fato de que as coisas não são exatamente como você gostaria. Esse é um estado normal, natural das coisas. Qualquer outra pessoa no planeta já passou por essa experiência e você certamente não está sozinho.

A terceira frase, “eu posso ser gentil comigo agora”, ajuda a trazer uma sensação de preocupação com o cuidado na sua experiência no presente. Seu coração começa a amolecer quando você se acalma e se conforta pela dor que está passando. A frase final, “posso me oferecer a compaixão de que preciso”, define firmemente a sua intenção de ser autocompassivo e lembra que você é digno de receber o cuidado compassivo.

Depois de algumas semanas praticando esse mantra de autocompaixão, Rachel começou a sentir uma pequena amostra da liberdade em sua mente constantemente negativa. Ela começou a ganhar consciência de seus pensamentos sombrios e depressivos, evitando se perder irremediavelmente na tristeza. Descobriu como ser menos autocrítica e não se queixar tanto do que estava errado em sua vida. Em vez disso, quando vivenciava pensamentos e emoções negativas, dizia suas frases na tentativa de se concentrar no fato de que estava sofrendo e precisava de cuidados.

Segundo Rachel, seu aspecto preferido da autocompaixão era “não ter que se enganar para fazê-la funcionar”. Diferentemente da prática de afirmações positivas, em que tentava se convencer de que estava tudo bem e tranquilo, a autocompaixão capacitava Rachel a aceitar e reconhecer o fato de que, às vezes, a vida é um saco. Mas não precisamos piorar as coisas. A chave para a autocompaixão não é negar o sofrimento, mas reconhecê-lo como algo completamente normal. Não há nada de errado com a imperfeição da vida se não esperarmos que ela seja perfeita.

“É estranho”, disse Rachel, “mas, às vezes, a minha negatividade desaparece assim que eu digo as frases que você me ensinou. Posso nem estar tentando fazê-la ir embora, ela só vai – puf! – como num show brega do David Copperfield”.

Rachel não se tornou uma espécie de Pollyanna. Ela ainda percebe o que está errado em uma situação antes de ver o que está certo. Mas a sua negatividade não a leva mais à depressão. Ela pode rir da escuridão de seus próprios pensamentos porque o pessimismo já não a controla totalmente. Quando se lembra de ser autocompassiva, é capaz de apreciar a metade cheia do copo ao mesmo tempo em que percebe a metade vazia.

Exercício
Desenvolvendo seu próprio mantra de autocompaixão

Um mantra de autocompaixão é um conjunto de frases memorizadas para repetir em silêncio sempre que você quiser se dar compaixão. São mais úteis no calor do momento, sempre que percebemos fortes sentimentos de angústia.

Você pode achar que as minhas frases funcionam, mas vale a pena brincar com as palavras para ver se você consegue encontrar frases que acolham melhor os seus sentimentos. O importante é evocar todos os três aspectos da autocompaixão, não importando as palavras em particular.

Há outras formulações possíveis para cada frase. A primeira (“Este é um momento de sofrimento”) também pode ser “Eu estou enfrentando um momento muito difícil agora” ou “É doloroso sentir isso agora” e assim por diante.

Outras formulações possíveis para a segunda frase (“O sofrimento faz parte da vida”) são “Todo mundo se sente assim às vezes” ou “Isso faz parte do ser humano” e assim por diante.

Outras formulações possíveis para a terceira frase (“Posso ser gentil comigo agora”) são “Posso acolher minha dor com ternura” ou “Que eu seja gentil e compreensiva comigo” e assim por diante.

Outras formulações possíveis para a frase final (“Posso me oferecer a compaixão de que eu preciso”) são “Eu mereço receber autocompaixão” ou “Vou tentar ser o mais compassivo possível” e assim por diante.

Encontre as quatro frases que parecem mais confortáveis para você e repita-as até que sejam memorizadas. Da próxima vez que se julgar ou tiver uma experiência difícil, use o seu mantra para se lembrar de ser autocompassivo. Essa é uma ferramenta útil para acalmar estados mentais problemáticos.

 

Fonte da foto: http://heatherhomemade.com/

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