A dupla dinâmica da meditação (trecho do livro "Sentar tipo Buda")

 3º PASSO: USE A DUPLA DINÂMICA DO JOGO

Após molhar a ponta dos dedos nas águas da meditação, talvez você tenha percebido que essa prática pode ser um desafio. Apesar de se chamar “meditação de permanência serena”, parece que a sua mente enlouqueceu. Na verdade, no começo é muito comum sentir que abriram uma represa na sua mente e que agora está descendo uma barragem inteira de pensamentos, como se você estivesse bem embaixo de uma cachoeira e os pensamentos caíssem em você com velocidade total. É... pode ser complicado nesse nível. A boa notícia (e, pode acreditar, eu estou falando isso por experiência própria) é que vai ficando mais fácil. Conforme ganha consistência na prática, você começa a notar um aumento na sua capacidade de permanecer com a respiração e ficar presente, tanto na almofada de meditação quanto com
os outros elementos do resto da sua vida. Mas demora um pouco até isso acontecer, então o ideal é continuar experimentando a prática de shamatha de forma regular, enquanto a gente segue para os próximos passos.

Agora quero te apresentar alguns ajudantes meditativos. São duas ferramentas que vão nos ajudar na prática: a atenção plena e a consciência (mindfulness e awareness). Pode colocar as duas na sua caixa de ferramentas, porque elas são, respectivamente, a furadeira e a fita métrica da meditação – e você vai usar muito nas suas práticas, então é melhor já se familiarizar com elas.

Primeiro, as definições. A palavra tibetana para “atenção plena” é trenpa, que pode ser traduzida mais diretamente como “a habilidade de manter a sua atenção em algo”. Bem direto ao ponto, né? Então, se você quer ter atenção plena à respiração, isso significa que você precisa manter a sua atenção na respiração. Se você quer ter atenção plena a uma conversa, isso significa focar totalmente no assunto. Se você quer ter atenção plena enquanto come, isso significa saborear e prestar atenção na comida. A atenção plena é o simples ato de estar plenamente presente com o que quer que você esteja fazendo. A  palavra “plena”, neste caso, significa “em essência”. Então “atenção plena” quer dizer que a gente está cultivando a essência de prestar atenção e estar presente.

A atenção plena é uma capacidade inata que todo mundo possui. Não é alguma coisa que a gente precisa ir ao supermercado para comprar. A gente já tem. Essa furadeira é uma ferramenta que já está na nossa caixa. A gente só precisa aprender a usar. Eu uso a furadeira como exemplo porque a atenção plena é uma ferramenta precisa – ela serve especificamente para manter a gente em sintonia com o momento presente. Ainda que às vezes possa ser desconfortável ou difícil estar plenamente presente com a respiração, essa prática, na verdade, é só uma aplicação dessa ferramenta para treinar nossa mente a fazer algo que ela já está acostumada a fazer de outras maneiras.

O que eu quero dizer é que, na verdade, a gente sempre está meditando sobre alguma coisa. Pode ser que a gente esteja meditando sobre aquela pessoa que passou na rua mais cedo, pensando como seria se a gente saísse, aonde a gente poderia ir, se iria rolar um beijo (ou algo mais) no fim da noite. Ou talvez a gente possa estar meditando sobre um projeto futuro no trabalho, sobre todas as pessoas que vão estar nas reuniões, fazendo notas mentais a respeito dos e-mails que a gente precisa enviar. O ponto é que a nossa mente sempre está sendo colocada em alguma coisa. Normalmente essa coisa é algo diferente do que está acontecendo aqui e agora. Portanto, a nossa mente se acostumou a meditar sobre o futuro e o passado – e a gente precisa treinar a mente para que ela volte ao presente. Esse é o poder da atenção plena: a gente aprende a ter precisão com a respiração, que serve como uma âncora do presente, para que mais adiante a gente possa ter mais atenção com o resto de nossas vidas. 

A segunda ferramenta, sobre a qual eu quero falar, é a confiável fita métrica da consciência. A palavra tibetana para “consciência” é sheshin. She pode ser traduzido como “saber”, e shin significa “presente”. Portanto, a gente pode pensar nessa expressão como sendo algo do tipo “presentemente sabendo” ou “sabendo o que está acontecendo neste instante”. É uma sensação de estar consciente do nosso ambiente, tanto físico quanto mental. Assim como a atenção plena, essa ferramenta é algo que a gente já possui.

A atenção plena e a consciência trabalham juntas para manter o nosso foco no momento presente. Elas são a dupla dinâmica das ferramentas meditativas. Em relação ao ambiente físico, pode ser que, em algum momento do dia, a gente escute o telefone tocar. Nesse caso é a consciência que diz: “Opa! Meu telefone está tocando”. Portanto, o reconhecimento de que algum som surgiu, e ele vem do seu telefone, faz parte da consciência do ambiente físico. Em seguida, você pega o telefone e começa a conversar com a pessoa que ligou, focando plenamente nessa conversa. Nesse caso, é a atenção plena que te permite ficar realmente presente durante o diálogo. Mas pode ser que a outra pessoa comece a te deixar entediado e você perca sua sensação de atenção plena. Se ela perceber que você não está ouvindo, pode ser que ela diga: “Você está prestando atenção no que estou dizendo?”. Então sua consciência rapidamente te traz ao que está acontecendo naquele momento, e você volta a estar presente com aquela pessoa.

 

Postagens relacionadas

0 comentários

Deixe um comentário

Os comentários devem ser aprovados antes de serem publicados

Anterior

·

Prefácio de Daniel Goleman para o livro "A alegria de viver"

Próximo

·

A visão que se tem à beira do abismo (trecho do livro)