Alan Wallace, sobre a prática de tonglen

O trecho abaixo é parte do livro "Budismo com atitude":

Na prática budista tradicional, começamos a prática de tonglen focando nossa mãe. Por exemplo, um lama em um monastério tibetano budista começava a ensinar o tonglen pedindo que os monges se lembrassem da bondade de suas mães no tempo em que estavam em seu útero, das dores do nascimento, do cuidado amoroso dado na infância quando eram seres totalmente desamparados, de quando ela estava presente em todos os momentos de necessidades. Nossas mães cuidam de nós como se fôssemos os mais preciosos de todos os seres.

Visualizar a mãe, nesse primeiro passo da prática de tonglen, apresenta um problema para muitos ocidentais. Muitos deles pensam em seus pais de forma pouco elogiosa, ou até mesmo como fonte de todos os seus problemas emocionais e preocupações. O Tibete tradicional não era livre de dificuldades familiares, mas o padrão era haver laços muito profundos e amorosos com os pais. Nas culturas budistas, as crianças são encorajadas a olhar os pais com um profundo sentimento de gratidão e respeito. Os pais são a fonte desta vida humana de tempo livre e oportunidades que, na perspectiva budista, é a base da prática espiritual para encontrar a felicidade que se procura desde tempos imemoriais. Os budistas têm muitas meditações com foco na bondade especial dos pais.

No Ocidente contemporâneo, os filhos (e até os filhos adultos) frequentemente se concentram nos defeitos de seus pais. Os tibetanos admiram a civilização euro-americana por muitas razões, mas ficam espantados com a maneira pouco civilizada com que nos referimos e tratamos nossos pais. A intenção da prática de tonglen é começar com a pessoa mais fácil, a pessoa por quem naturalmente
sentimos mais amor e carinho. Na cultura budista, essa pessoa seria a mãe. Na cultura ocidental moderna, essa primeira pessoa mais fácil pode ser substituída. Seja como for, comece a prática de tonglen com uma pessoa fácil, amada ou amiga. A partir daí, avance para o amor incondicional pelos seus pais. Mesmo que seus pais tenham sido agressivos ou pouco amorosos, é possível nutrir um
sentimento de gratidão por qualquer coisa boa que lhe tenha sido dada e aceitar o resto com perdão. Isso não é fácil, mas nós todos, incluindo os pais, somos seres imperfeitos que sofrem com aflições mentais. Praticar tonglen com os pais leva muitas pessoas a grandes avanços na prática. O objetivo aqui é abrir nossos corações incondicionalmente, em especial para os nossos pais.

Os ensinamentos budistas reconhecem que a primeira vítima de um comportamento digno de desprezo é a própria pessoa que o manifestou. O desafio é reconhecer que a única resposta apropriada ao comportamento agressivo é a compaixão. Se você tem pais que foram menos do que ideais, traga-os à mente com todas as suas falhas. Imagine-se trazendo o sofrimento deles ao seu coração e dissolvendo-o com a aspiração, “Que você possa se libertar”.

Como na prática budista tibetana tradicional de tonglen, concentre-se em sua mãe, lembrando de sua bondade, e abra as portas do afeto de seu coração. Os tibetanos se concentram mais na mãe do que no pai; a mãe geralmente passa mais tempo com as crianças e muitas vezes é mais carinhosa. Imagine-se trazendo todo o sofrimento de sua mãe e suas causas para seu coração, e imagine-se oferecendo a ela todas as suas posses, virtudes e felicidades, sem reservas. Faça a mesma prática para seu pai.

É bom ajudar as pessoas materialmente ou com amizade e proteção. Esses presentes são úteis em momentos específicos da vida. Na tradição budista, o maior presente de todos é oferecer o Darma, porque esse é o meio de aliviar o sofrimento desde a sua fonte e de encontrar a felicidade genuína. Imagine-se oferecendo à sua mãe tudo o que ela precisa no âmbito material. E, então, imagine-se oferecendo a ela o Darma. Se ela for cristã, ofereça o Darma Cristão. Se ela for judia, ofereça o Darma Judaico. Imagine que oferece à sua mãe o Darma mais apropriado.

A prática de tonglen pode realmente aliviar o sofrimento da outra pessoa, mas o verdadeiro critério de sucesso nesta meditação é a atenuação de nosso autocentramento e o desenvolvimento do amor e da compaixão em nossos próprios corações.

Muitas gerações de budistas, desde a época da Índia antiga até os dias de hoje, têm se dedicado ao tonglen como sua principal prática, pela vida toda. Geshe Ngawang Dhargyey, que sabia da minha atração especial pela atenção plena à respiração, me disse: “A consciência da respiração é uma boa prática, mas unir cada respiração ao tonglen tem um mérito infinitamente maior do que simplesmente observar as sensações táteis da respiração”. Cada respiração torna-se significativa quando você se imagina tomando o sofrimento dos outros e oferecendo-lhes sua alegria.

 

Foto da Nicole De Khors do Burst