Reconhecendo gatilhos e padrões

Um trecho de Resgate emocional (capítulo 4).

Depois de se ter passado algum tempo observando, com presença mental, como agimos e reagimos enquanto vivenciamos diversos estados emocionais, começamos a reconhecer padrões. Tornamo-nos capazes de reconhecê-los: É assim que eu fico quando estou com raiva, é assim que fico com ciúmes, com desejo e assim por diante. Nesse ponto, já temos um bom retrato de nossa própria constituição emocional. Esse olhar fresco sobre si próprio quando sob a influência de tais hábitos pode revelar qual é o momento ideal para buscar ajuda e procurar uma saída.

Também é importante reconhecer o que mais pode estar contribuindo para nossas reações. Enquanto as causas profundas de nossos sentimentos nem sempre estão claras, geralmente conseguimos entender as condições mais imediatas que servem de gatilho para um surto de energia emocional. Haverá condições ambientais ou sociais que usualmente nos influenciam de uma forma ou de outra? O que nos perturba, nos acalma, nos coloca para dormir ou nos mantém acordados?

Digamos que você e seu amigo Joe foram à sua praia favorita uma tarde dessas. O sol está brilhando e é um dia perfeito. Você está ansioso para passar esse tempo com ele num cenário natural e sereno. Ao chegar lá, porém, você descobre, para seu desapontamento, que a praia está cheia de famílias, corredores, surfistas e pessoas tomando banho de sol. Em vez de relaxar, você fica agitado. Logo percebe que o sol é quente demais e a água demasiado fria. Você quer ir embora, mas Joe acha a situação tranquila e quer ficar. Você começa a reclamar, mas isso não surte efeito. Então você começa a falar da teimosia (“tão típica”) do Joe, o que o faz discorrer sobre como você é bom em fazer tudo do seu jeito. Sucesso: você arruinou o dia para si mesmo, para o seu amigo e para todos ao redor que foram forçados a ouvir tanto resmungo.

Num cenário assim, um pouco de presença mental poderia ter mudado esse desfecho. Quando conseguimos reconhecer as frustrações exatamente quando começam, reconhecemos o seu gatilho – vemos claramente. Esse discernimento pode nos salvar de surpresas negativas, tropeços na nossa própria confusão e de batermos de cara na parede – ou qualquer uma de nossas formas usuais de chegar a um ponto doloroso.

Geralmente não operamos com tal visão panorâmica. Quando as coisas começam a ficar espinhosas, em vez de respirarmos fundo e olharmos ao redor, buscamos algo em que nos agarrar. Queremos que a energia tenha uma âncora ou um foco claro. Tendemos a nos concentrar em nós mesmos ou na pessoa (ou coisa) que está nos perturbando. Quando o refletor recai sobre nossa própria mente perturbada – caso não estejamos prestando atenção, caso não nos lembremos de manter presença mental –, acabamos em um de nossos velhos padrões. Causamos dor a nós mesmos com nossa autocrítica vertiginosa e/ou com reclamações sobre como ficamos machucados, humilhados ou chateados. Não importa o padrão, tudo diz respeito ao que está acontecendo comigo, e esse eu se torna a característica central da paisagem. Todo o resto fica fora de foco, ao fundo.

O refletor também pode recair sobre o objeto das emoções. Caso seja uma pessoa com quem se está bravo – o vendedor de carros que empurrou aquela lata velha –, então é razoável sentir alguma indignação perante tal comportamento escandaloso. Porém, caso percamos toda a presença mental e fiquemos presos nisso, o foco estreito e determinado em uma pessoa pode se tornar uma obsessão. A mente fica presa num ritmo, um padrão de pensamentos e sentimentos recorrentes que não se consegue evitar. Então se tem um problema. Mas nem sempre o foco é uma pessoa. Também podemos ficar obcecados com objetos e ideias – o computador mais rápido, perder três quilos ou certo partido ganhar maioria no Congresso.